sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Las Líneas encerra temporada do projeto Tríptica

 


O espetáculo solo de dança “Las Líneas”, interpretado por Lucía Reizner, estreia neste sábado, dia 16, e será exibido on-line também nos dias 17, 23 e 24 de outubro, sempre às 19h30. O solo aborda possibilidades de vínculos históricos entre mulheres e os espaços que ocupam.


Lucía Reizner está em cena na última estreia da temporada do projeto Tríptica. Foto: Esteban Bisio.

Viajei pela América Latina e conheci muitas mulheres fortes pelo caminho. Potências muito grandes em cada cantinho desconhecido. São minhas inspirações.”, afirmou Lucía.

 

A direção é de Ivna Messina. A trilha sonora é uma criação original de Esteban Bisio. O espetáculo poderá ser visto gratuitamente no YouTube do projeto Triptica, que reúne três bailarinas do Estado para a montagem de trabalhos solos e oficinas de formação em dança.

 

Este projeto é uma realização da Voe Produções, produção da Companhia do Outro e está sendo realizado com recursos do Funcultura – Secretaria da Cultura do Estado do Espírito Santo através do edital 030/2019.

 

Projeto Tríptica


Com realização da Voe Produções e produção da Companhia do Outro, o projeto reúne três bailarinas para montar três espetáculos solo, a partir das inquietações sobre o feminino, o ser mulher na atualidade e as questões relacionadas às dores e aos prazeres. Todas convidam diretoras mulheres das artes cênicas capixabas e elaboram oficinas de formação, ensaios abertos, bate-papos e apresentação para escolas do Estado.

 

SERVIÇO:

LAS LÍNEAS - TEMPORADA DE ESTREIA

16, 17, 23 e 24 de outubro

19h30

YouTube do projeto: https://linktr.ee/triptica

Gratuito

 

FICHA TÉCNICA:

Intérprete-criadora, pesquisa e concepção _ Lucía Reizner

Direção cênica e coreográfica _ Ivna Messina

Dramaturgia _ Lucía Reizner e Ivna Messina

Assistência dramatúrgica _ Alexsandra Bertoli

Direção musical e trilha sonora _ Esteban Bisio

Iluminação _ Daniel Boone

Direção de arte _ Thila Paixão

Produtor _ Luiz Carlos Cardoso

Câmeras, edição e fotos para divulgação _ Esteban Bisio

Produção _ Companhia do Outro

Apoio _ Sala Baila!

Realização _ Voe Produções

Classificação: Livre

 

Projeto realizado com recursos do Funcultura – Secretaria da Cultura do Estado do Espírito Santo através do edital 030/2019

terça-feira, 12 de outubro de 2021

JEREMIAS SCHAYDEGGER FALA SOBRE SUA CARREIRA E INCLUSÃO ATRAVÉS DA DANÇA EM CACHOEIRO DO ITAPEMIRIM

 

Encantado pelo circo e com natural desenvoltura para a dança desde criança, Jeremias Schaydegger veio de uma família grande, com 13 irmãos, que, embora não tivesse proximidade com a arte, nunca o impediu de dançar. Nascido em Cachoeiro de Itapemirim, escolheu sua cidade natal como lugar para desenvolver sua carreira como bailarino, professor e coreógrafo. Mesmo com todas as dificuldades de quem tenta viver da dança com poucos recursos e estando deslocado de uma capital, Jeremias buscou conhecimento além de suas fronteiras geográficas, tendo, inclusive, integrado a Cia. de Dança Mitzi Marzzuti, em Vitória, e estudado na Escuela Nacional de Havana, em Cuba. Entre seus maiores aprendizados, contudo, talvez esteja a arte de sorrir cada vez que o mundo diz “não”, como canta Maria Bethânia, por quem se diz apaixonado. A superação dos nãos e das limitações através da dança acabou por se tornar uma de suas bandeiras, levando-o a fundar inúmeros projetos sociais e de inclusão de pessoas com deficiência. Além disso, Jeremias é fundador do Núcleo Cachoeirense de Dança. Confira abaixo a entrevista que o artista concedeu ao Portal Dança no ES!

 



P: Como foi o começo da sua trajetória na dança?

 

Desde pequenininho eu já gostava de dançar, e com certeza eu tive contato com dança em uma outra vida, carrego desde pequeno essa característica. Eu sempre morei em Cachoeiro. Nunca nós tivemos aqui aulas de dança. Eu soube, depois de muitos anos, que lá pelos anos 60, dona Lenira Borges fez um trabalho aqui, mas acho que eu era pequeno demais ainda, não cheguei a saber. Então o Sul ficou meio isolado.

Na realidade, a dança começou a andar mesmo de uns 10, 15 anos para cá, porque até então eram grupos que faziam a história, como a companhia de Mitzi Marzzuti, com a qual eu dancei por muitos anos; eu participei da primeira formação dela. Mas naquela época e até hoje eu acho que é muito difícil caminhar e batalhar com a dança.

Minha primeira apresentação foi aos 6 anos de idade, quando uma professora de educação física da escola me convidou para fazer parte de um teatro musical da Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau. Eu acabei virando o caçador, não sei como, e aquela coisa de pisar no palco, de cantar, de atuar, mesmo sendo uma coisa muito simples, me encantou. Depois dali, elas começaram a me inserir em atividades de ginástica olímpica e viram que eu tinha muito jeito, e comecei a dançar depois no festival de dança que tinha todo ano na cidade, no festival de folclore que também tinha e era parte do calendário festivo da cidade. E a gente começou a fazer coreografias e a dançar na época dessa escola.

Em 79, a Denise Prates chegou aqui em Cachoeiro como a primeira pessoa com academia de dança, eu fui fazer aula, fiquei 5 anos com ela, depois eu comecei a fazer curso fora e a minha seta virou.

 

P: Foi nesse momento que você compreendeu que seria essa a sua carreira?

 

Sim, até então eu tinha tentado fazer faculdade de arquitetura, mas fiquei reprovado no vestibular. Mas quando fiz vestibular, eu já dançava como iniciante. Como não deu certo na prova, pensei em pegar firme na dança; eu percebi que aula de dança eu tinha como algo sagrado, porque eu não faltava, podia estar com febre, doente... eu ia à aula! Então eu percebi, nesse momento, que era uma coisa que eu gostava muito de fazer, além de já ter nascido com um monte de coisas no meu corpo mesmo, eu já tinha uma meia ponta alta, bonita, parecia que eu já fazia aula de dança há muito tempo. Várias pessoas que me chamavam para dançar achavam que eu já tinha muita experiência.

Em 1986, eu fui fazer o primeiro curso fora, em Belo Horizonte, com o Grupo Corpo. Quando eu cheguei lá, eu senti que faltava muita coisa para mim, porque eu não tinha um trabalho técnico desenvolvido, eu não conhecia a técnica da dança, não conhecia a nomenclatura de quase nada. Aí eu cheguei naquele curso e percebi que eu não estava, nem de longe, perto deles. Quando eu digo que a seta virou, foi no sentido de ir buscar o que tivesse semelhança com o que eu fiz lá. Então eu já fui fazer um ano de Jazz com a Ruthinha Melo, que era uma outra professora daqui na época.

No ano seguinte, chegou uma amiga minha lá na academia onde eu comecei a dar aula. A Fafá tinha chegado da África, onde tinha morado 4 anos. E ela quis montar um grupo de dança afro-moçambicana. Ela chegou com um monte de coisas diferentes, com uma técnica de dança diferente, tudo me encantava muito. Eu não tinha um gosto definido para a dança. Tudo o que eu via e achava que era consistente para mim, eu entrava e embarcava junto. Montamos um grupo de dança afro chamado “Un, Deux, Trois”. Mas, de pessoas negras, havia umas três só. A gente montou um espetáculo chamado “Mãozinha no Tamborim” e ficou dançando essa coreografia; para onde nos convidavam, íamos apresentar para mostrar como era o trabalho para o pessoal que não conhecia.

Eu, na época, trabalhava na Secretaria de Cultura aqui em Cachoeiro, na Prefeitura, e em 87 o secretário pediu que eu organizasse uma mostra de dança aqui, aí convidei grupos de Vitória da época, e o grupo de dança afro também foi dançar “Mãozinha no Tamborim” nessa mostra; aí a Mitzi viu e me convidou para participar da companhia dela, que estava começando. Um bailarino não tinha disponibilidade para viajar e teve que sair, e eu entrei no lugar dele, na primeira formação da companhia. Fiquei com a Mitzi uns oito ou nove anos. Eu acho ela maravilhosa como mentora, de uma cabeça incrível e uma sensibilidade maior ainda.

 

P: Nesse período você teve que vir para Vitória?

 

Sim, mas eu ia três vezes por semana. No final de semana, quando tinha viagem, eu ia sexta, já ficava direto e voltava depois. Uma loucura, mas eu tinha certeza de que era aquilo que eu queria. Eu fiquei um ano e meio morando em Vitória e não tinha grana para vir aqui em Cachoeiro ver minha mãe. Eu chorava até dormir. Foi muito perrengue, que eu acho que qualquer pessoa já teria desistido.

Eu fiquei com a Mitzi esse tempo e comecei a dar aula lá também. E aí eu tive que sair da companhia porque a vida vai te cobrando, vão chegando outras responsabilidades, eu comecei a dar mais aulas, assumi aula no dia em que eu ia para Vitória, aí já ficou mais difícil de eu ir. E acabei ficando meio ilhado aqui em Cachoeiro, porque tudo acontece mais em Vitória mesmo. Mas sempre que eu tenho uma oportunidade estou fazendo e buscando alguma coisa, porque, principalmente na arte, as coisas mudam muito, é uma evolução constante, o novo está vindo e a gente não pode ficar longe dele.

 

P: E você acabou indo a Cuba, ganhou um concurso de dança lá; como foi isso?

 

Eu estava aqui em Cachoeiro e a Patrícia Miranda me ligou dizendo que estavam organizando um grupo para ir a Cuba fazer um curso. Chegamos lá e foi muito bom, porque eu fazia aula de manhã em uma escola até o quinto ano e de tarde eu fazia na médio profissional, que era considerada ensino médio para eles. A gente ficou 3 semanas, sendo que, na última, estava programado de a gente descer para uma praia chamada Varadero, que é muito famosa. Quando a gente chegou no hotel, o Lázaro, um animador de piscina que ensinava ritmos cubanos, falou que precisava de um casal para representar o hotel num concurso internacional de dança que ia ter do carnaval de Cuba, como se fosse rei e rainha do carnaval. O que determina esse evento são quatro ritmos cubanos, que você precisa conhecer e fazer toda a encenação necessária. Todo mundo falou “vai, Jerê; vai, Liliane!”.

Liliane é uma outra amiga, que é dona do Espaço da Dança em Vila Velha, e a gente acabou topando. E aquele negócio de concurso internacional estava soando meio engraçado para gente, porque já estávamos ali meio de férias. No dia, ele ensaiou a gente por meia hora, sendo 12 minutos de coreografia, com quatro ritmos. Ele deu uma camisa do hotel para mim e para Liliane, a gente entrou na van e foi. E não tinha uma torcida, tinha só um amigo dele com um apito, porque se pagava para entrar e ninguém tinha mais grana no final da viagem. Mas a gente ainda estava com aquela sensação de que era uma coisa simples. Chegando lá, colocaram a gente numa sala grandona, parecia salão de igreja, aí começou a dar um frio na barriga. Nós percebemos que tinha um casal de cada país.

Aí eu fiquei sabendo que tudo de melhor de Cuba estava ali, todas as companhias estatais de cultura estavam lá, os cantores todos estavam lá, e a gente achando que seria uma coisa boba, uma festinha. Eram 36 casais em três subgrupos, e a gente pegou o último grupo. Bebida para gente era de graça, começamos a beber. No segundo grupo, a Liliane falou “vamos ganhar esse negócio aqui hoje?”, aí eu disse “então vamos parar de beber”. Conclusão, a gente subiu no palco, participou de tudo e no final eles chamaram o primeiro lugar de cada ritmo; a gente ficou com primeiro lugar em conga, em mambo e primeiro lugar geral. Meu nome está lá na plaquinha, em livro!

 

P: Ao longo de sua trajetória, você optou por não sair de Cachoeiro. Como vê isso para o cenário da dança na cidade?

 

Nunca saí daqui, só saí por um ano e meio, em que eu morei em Vitória direto. Mas na época eu dançava com a companhia, fazia aula, dava aula em outros lugares, trabalhava em barzinho em Jardim da Penha, eu corria atrás porque tinha que pagar o aluguel da casinha e tinha que, de certa forma, me manter como desse ali. Na época, eu sabia que era bem puxado, mas hoje eu falo que cada roncada que a minha barriga deu de fome valeu a pena.

Valeu muito porque eu não me vejo hoje sem a dança, eu acho que a dança sempre vai existir na minha vida, acho que ela vai ser sempre meu remédio, minha cura. A minha cabeça não para de pensar em dança. Eu tento colocar a dança em tudo o que eu vejo, em todas as pessoas, então eu falo que o fato de eu ter ficado meio em uma concha aqui no Sul me fez, de certa forma, ver a dança por um outro lado.

Eu sou praticamente o fundador de um projeto aqui, o Projeto Mova-se, que é de inclusão, de acessibilidade; eu sempre me apeguei muito às causas sociais, sempre que eu dava aula na academia, pegava criança na escola e levava, arrumava madrinha para pagar uniforme, para pagar uma roupinha para dançar. Sempre tive essa mão. Porque eu acho que as pessoas merecem isso. Eu não posso trabalhar com uma coisa que seja limitada apenas para quem tem condição de pagar. Acho que todo mundo tem o direito de ter arte na vida, a arte salva.

Hoje, mais do que tudo, eu falo que a dança é remédio, que a dança é pomada, que a dança cura amor que se foi, então a dança faz um monte de coisa dentro da gente. E ainda hoje, em pleno século XXI, a gente ainda sofre muito preconceito, quando os nossos ancestrais dançavam para tudo, se chovia, eles dançavam para agradecer, se não tinha chuva, eles dançavam para pedir.

 

P: Você desenvolveu projeto com a APAE; projeto Dançarte; ganhou título de Guardião da Solidariedade, em 2013. Conte um pouco mais sobre sua atuação em projetos sociais.

 

Hoje eu trabalho com as aulas de ballet com as crianças a partir de 3, 4 anos. E quando eu comecei a pegar cerca de 20 crianças na escola para dar aula de dança, não me contentei com aquilo; aí na semana seguinte eu estava dentro da escola de surdos, pedi ao diretor da escola de surdos para eu tentar fazer um trabalho com eles, que eu não conhecia, porque eu não tinha formação em dança adaptada, então eu fui muito no meu impulso, no meu instinto. Deu certo, falei “vou ficar vindo toda semana aqui também”, na semana seguinte eu fui para a APAE, cheguei lá e conheci um monte de crianças com síndrome de down, eu fiquei apaixonado. Conheci as pessoas que tiveram paralisia cerebral, cadeirantes, e pronto, ali eu estava com ingrediente para fazer uma salada muito boa, muito gostosa. E comecei também a entrar nesse universo das outras deficiências.

 

P: Você realmente entende a dança como sendo para todos...

 

Sim. E eu gosto muito de explorar os limites das pessoas. Teve uma coreografia que a gente fez que tinha três alunos cadeirantes lá da APAE. No ano seguinte eu voltei na APAE (porque sempre faço esse trabalho no primeiro semestre), quando eu cheguei na quadra, tinha um aluno cadeirante jogando futebol. Isso porque, no ano anterior, eu falei “você vai descer da cadeira e vai voltar”, então ele se virava para descer da cadeira, dançava no chão, depois ele voltava para a cadeira. Era uma coisa que ele não fazia antes, ele foi estimulado a fazer, artisticamente. E quando ele percebeu que ele conseguiu fazer aquilo, deu um gás nele e ele estava jogando futebol.

Então eu falo que aonde a dança vai, ela puxa coisa da gente, ela te faz chegar a lugares onde você não imaginava. E em 2004 nasceu o Projeto Gente, que é esse projeto de dança inclusiva. No ano seguinte, o grupo do NCD foi dançar em Vargem Alta. Cheguei lá, uma amiga minha, que foi minha amiga de escola e que tinha perdido a visão, estava sentada na plateia, e eu cheguei perto dela, sentei, me apresentei. A gente sempre foi amigo. Aí eu perguntei “você quer dançar comigo?”. A coluna dela ficou ereta e respondeu “é sério?”. Eu disse “é, você quer dançar?”. Ela disse “quero!”, e Maristela passou a fazer parte desse elenco de convidados. Todo ano, quando ela pode, a gente monta números, sempre com alguém dançando junto. Descobri formas diferentes para trabalhar com cada deficiência.

 

P: Você deve ter aprendido muito, né?

 

Foi e está sendo uma grande escola, ao mesmo tempo uma realização, porque eu estou vendo que a dança está sendo para mim, hoje, realmente tudo o que eu sempre imaginei. E eu monto esse espetáculo e coloco meus alunos de ballet para conviver com essa realidade, com essas diferenças, para, quem sabe, torná-los cidadãos melhores, com respeito ao ser humano, com empatia.

E eu vejo coisas maravilhosas ali na coxia, nos bastidores, criança conversando com surdo sem nunca ter feito nenhum curso de Libras. Acho que, quando se ama, existe um código, essa comunicação acontece de uma forma muito verdadeira. No final, na hora de agradecer, criança brigando para empurrar a cadeira de rodas, para entrar no palco. Então eu acho que consegui atingir meu objetivo com ser humano, como professor de dança e como uma pessoa que acredita no real poder da dança para a humanidade. Eu acho que a dança é realmente uma arma do bem para que as pessoas se sintam melhores e se vejam melhores.

 

P: O Núcleo Cachoeirense de Dança (NCD), quando e como surgiu?

 

O Núcleo surgiu em 1991, lá na academia da Jerusa Altoé. Comecei a fazer um trabalho lá bem legal, eu ainda estava em processo com a companhia. Eu fiquei lá por dez anos, e depois eu fui para uma sala que a gente pegou lá no Centro e eu fui mudando e, desde 2007, estou na academia onde trabalho até hoje. O Núcleo me deu muitas coisas boas também, de trabalho que a gente montou, de festivais de fim de ano, um grupinho que eu formei lá dentro, porque a gente tem uma realidade ainda aqui... hoje já existem algumas faculdades, mas antes ninguém ficava, todo mundo, chegava uma época, tinha que sair da cidade. Quando o aluno chegava num ponto legal para começar a dançar, tinha que sair por conta de estudo e não voltava mais.

Atualmente, aqui em Cachoeiro, particularmente, a gente está sofrendo muito, porque há dois anos nós estamos sem teatro devido à enchente. Quase um ano depois da enchente, veio a pandemia. E infelizmente eu não ouço falar nada, de ninguém, sobre uma esperança, que seja, para que o teatro volte a funcionar a todo vapor, porque é um público muito grande que depende disso, de artistas e pessoas que trabalham nisso, e o teatro aqui, acho que como em todo lugar, funciona como uma grande máquina de fazer cultura. O tempo inteiro tem gente aprendendo, tem gente nova aparecendo, então essa roda parar de girar é uma coisa muito ruim, porque você se sente limitado.

 

P: Falando do Teatro Rubem Braga, você levou muita gente para aquele palco, não é? Jovens que talvez nem sonhassem em se apresentar em um teatro como aquele.

 

Muitos. Esse projeto mesmo... De 2000 até 2004 eu tive um projeto com a Prefeitura, em que a gente trabalhava com 100 alunos da rede pública, em 4 turmas de 25 alunos por ano. Todos os bairros periféricos, todos os “Altos”, como falo, Alto Zumbi, Alto Coramara, Alto União, Alto Village... eu consegui descer com aluno para fazer aula ali no Centro. A gente trabalhou com quase todas as escolas da rede pública aqui na época.

Então é uma pena que esses projetos não tenham continuidade, porque troca-se o prefeito e tudo muda. As pessoas não têm interesse em continuidade, as coisas sempre se quebram, e aí você tem que partir do zero novamente. Se não tivesse parado, o movimento da dança hoje seria outro aqui. A gente tinha o festival de dança das escolas, que levava dez mil pessoas de público para os ginásios de esportes lá na Nova Brasília. Foi uma época legal, porque você via muita gente talentosa, tanto dançando quanto coreografando. Isso acabou. O grande fomentador da dança, na minha opinião, foi esse festival.

 

P: Você acredita que a dança é uma forma de transformação social?

 

Acredito, através dessas políticas públicas, em primeiro lugar. Promover a chegada da dança em lugares que muita gente acha que é impossível; tem que ter bons profissionais, pessoas que queiram realmente se despir de qualquer coisa para poder fazer esse objetivo ser atingido, porque nem sempre chegar a essas crianças é fácil. A gente precisa de pessoas que façam e que tenham essa paciência de quebrar esse gelo, de chegar ali e começar a crescer o trabalho junto àquela criança. E encontrar pessoas e órgãos que se comprometam em ajudar a conclusão dessas ideias e fazer com que isso se perpetue, e não deixar como se fosse uma ação da “minha pasta”. A dança, como qualquer outra atividade, tem que ter continuidade, você não faz um ano, dois anos e se forma, tem que haver uma continuidade. E aqui principalmente, em Cachoeiro, a gente precisa de mais espaços culturais para a cidade. A cidade está crescendo e nós não temos quase nada aqui, e o que tem está parado. Então eu acho que tem que ter mais envolvimento político, a união dos artistas mesmo e acho que tem que haver uma ação para que comecem a mudar as coisas.

 

P: E você em cena, quando poderemos ver novamente?

 

Eu tinha uma vontade de fazer alguma coisa no ano que vem. Ano que vem eu faço 60 anos, então eu queria fazer alguma coisa, mesmo que seja simples, porque eu parei de dançar, eu não me apresento há uns seis anos. Quando eu entro agora faço o vovô do ballet, um personagem que pode ser alguém mais gordinho, um pouco lento, que não tem que fazer pirueta, saltar muito. Mas estou aí! Vamos ver se a gente começa a trabalhar um pouco nisso. Se rolar um solo, vou chamar vocês para virem assistir!

 

P: Você parece conjugar a dança também com a terapia, além da educação...

 

Eu carrego para esse lado, então eu gosto de tudo, dançar descalço na grama, aquelas coisa da bioenergética ou da biodança, é muito bacana você dançar os sons, os ventos, o movimento das árvores, eu gosto muito disso, eu presto muita atenção nessas coisas. E você sente que é tudo vivo, o universo está em movimento o tempo inteiro, ele está dançando o tempo inteiro, então por que a gente não pode também dançar? Temos que dançar. Que seja numa boate, que seja num desfile de escola de samba, que seja onde for, mas dance, se mexa, dançar aumenta a nossa imunidade, dançar só faz coisa boa dentro da gente.

Todo mundo merece buscar sua felicidade, que seja na dança, que seja no teatro, que seja nas artes. A arte não pode sair da vida de ninguém, a arte sempre esteve presente. Temos que fomentar esse público, fazer com que a arte cresça no meio de cada um, porque acho que tudo vai ser mais fácil quando você estiver de mãos dadas com a arte.


sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Último mês de aulas do Dança em Trânsito


As aulas gratuitas para profissionais de dança oferecidas pelo festival internacional Dança em Trânsito completam cinco meses consecutivos e se encerram em outubro trazendo diferentes propostas apresentadas pelas coreógrafas AnaVitória, radicada em Portugal, Camila Fersi, Carolyna Aguiar, Esther Weitzman e a alemã Stephanie Thiersch.

Sempre às sextas-feiras, as aulas têm duração de 1h30 e são gratuitas e online, mediante inscrição. Para participar é necessário enviar um breve currículo, de até três linhas, para o email online@espacotapias.com.br. Algumas aulas serão disponibilizadas para o público no canal do YouTube do Espaço Tápias. 


Camila Fersi ministrará oficina de improvisação dia 08 de outubro. Foto: Divulgação.


O mês será aberto com a coreógrafa e bailarina AnaVitória, radicada em Portugal, que no dia 1º de outubro apresenta um conjunto de técnicas que foram criadas pela bailarina e mestra de dança contemporânea Angel Vianna, figura fundamental na cena brasileira desde a década de 50. “O acontecimento aula do papel criado por Angel em 2002 é mais uma mostra de como o advento da arte contemporânea se revela cada vez mais inesgotável e surpreendente”, destaca a coreógrafa. Neste encontro, os jogos corporais e a conscientização do corpo sensível são ativados em sua multissensorialidade a fim de se chegar a um corpo presente e vibrátil, onde tônus muscular e afetivo sejam convocados para se criar novos estados de presença do performer-bailarino-intérprete. 

No dia 8, Camila Fersi faz uma oficina de improvisação, que promove um compartilhamento de táticas sobre produção de danças e dramaturgias através da improvisação e sua relação com os dispositivos tecnológicos. A aula acontece através de breve conversa sobre roteiros de improvisação e parte para a experimentação e criação de roteiro instantâneo que será dançado/performado por todos. 

Para o encontro virtual com profissionais no dia 15, a alemã Stephanie Thiersch está propondo uma aula de pesquisa e composição voltada para uma reflexão sobre o corpo e a imagem. Composições baseadas em visuais do cotidiano, nas representações de corpos em ambientes urbanos, como através da publicidade. Os alunos lidarão com Tableaux Vivants (pinturas vivas) como uma forma de arte coreográfica.

 

Carolyna Aguiar preparou para a aula do dia 22 um trabalho de potência e entrega, iniciado com uma série simples de exercícios para liberar as articulações. Na série do butô, os movimentos trabalham e condensam a força no centro do corpo, força usada para se recuperar e curar. Na caminhada zen, alinha-se a respiração com o movimento, pausas da respiração e equilíbrio. E por fim, um improviso com música.

 

Dança e Criação é a aula de encerramento, no dia 29, com a coreógrafa, professora, bailarina e preparadora corporal  Esther Weitzman. Ela criou a sua Companhia de Dança em 1999, firmando-se como coreógrafa no cenário da dança brasileira com vários prêmios e indicações recebidas. Especialista em Arte e Filosofia (PUC/RJ, 2006), formada em dança pela Escola Angel Vianna.

A 19ª edição do Dança em Trânsito começa em 6 de novembro e segue até 18 de dezembro em formato híbrido, presencial e online, envolvendo 23 cidades de nove estados das cinco regiões do país. Mais informações serão divulgadas à frente. Apresentado pelo Ministério do Turismo, o festival internacional é apresentado e patrocinado pelo Instituto Cultural Vale, Banco do Brasil e Engie.

 

SERVIÇO

Aulas de Dança Contemporânea / Manutenção para profissionais de dança e artes cênicas

PROGRAMAÇÃO DE OUTUBRO (sempre às sextas)

01/10  - Aula do papel, com AnaVitória (Portugal) 

08/10  - Oficina de improvisação, com Camila Fersi  (Brasil) 

15/10 - Pesquisa e composição, com Sthephanie Thiersch (Alemanha)

22/10 - Preparando o corpo para a performance e despreparando-se para estar presente, com Carolyna Aguiar (Brasil)

29/10 - Dança e Criação, com Esther Weitzman (Brasil)

Horário: 13h30 às 15h, na plataforma Zoom

Inscrições: envio de currículo (3 linhas) para o email online@espacotapias.com.br

 


quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Espetáculo UNA traz nuances da mulher contemporânea


O espetáculo solo de dança “Una”, interpretado por Érica Ortolan, estreia neste sábado, dia 02 e será exibido on-line também nos dias 03, 09 e 10 de outubro, sempre às 19h30. O solo propõe uma reflexão sobre os mais diversos desconfortos que as mulheres são levadas a sentir em relação à natureza de seus corpos.


Obra com Érica Ortolan é a segunda estreia na temporada do projeto Tríptica. Foto: Esteban Bisio.
 

Com a estética como ponto central e com referência aos ciclos femininos da vida, uma dramaturgia corporal é costurada como resgate, despertar e conscientização da emancipação corporal feminina.

 

A direção é de Patrícia Miranda e Eliane Miranda. A trilha sonora é uma criação original de Dori Sant’ana. O espetáculo poderá ser visto gratuitamente no YouTube do projeto Tríptica, que reúne três bailarinas do Estado para a montagem de trabalhos solos e oficinas de formação em dança.

 

Este projeto é uma realização da Voe Produções, produção da Companhia do Outro e está sendo realizado com recursos do Funcultura – Secretaria da Cultura do Estado do Espírito Santo através do edital 030/2019.

 

Projeto Tríptica


Com realização da Voe Produções e produção da Companhia do Outro, o projeto reúne três bailarinas para montar três espetáculos solo, a partir das inquietações sobre o feminino, o ser mulher na atualidade e as questões relacionadas às dores e aos prazeres. Todas convidam diretoras mulheres das artes cênicas capixabas e elaboram oficinas de formação, ensaios abertos, bate-papos e apresentação para escolas do Estado.


 

SERVIÇO


UNA - TEMPORADA DE ESTREIA


02, 03, 09 e 10 de outubro

19:30 horas

YouTube do projeto: https://linktr.ee/triptica 

Gratuito

 

FICHA TÉCNICA:

Intérprete-criadora, pesquisa e concepção _ Érica Ortolan

Direção Coreográfica _ Patrícia Miranda

Direção Dramatúrgica e Preparação Corporal _ Eliane Miranda

Direção Musical e trilha sonora _ Dori Sant'Ana

Iluminação _ Daniel Boone

Direção de arte _ Thila Paixão

Identidade visual _ Alê Flor Ferraz

Assessoria de Imprensa _ Karolina Lopes

Produtor _ Luiz Carlos Cardoso

Câmeras, edição e fotos para divulgação _ Esteban Bisio

Produção _ Companhia do Outro

Apoio _ Balé da Ilha Escola de Dança

Agradecimentos _ Nieve Matos e Daiane Eilert

Realização _ Voe Produções

 

Classificação: Livre

 

Projeto realizado com recursos do Funcultura – Secretaria da Cultura do Estado do Espírito Santo através do edital 030/2019

terça-feira, 28 de setembro de 2021

RENATO SANTOS E A CONSTRUÇÃO DE UM LEGADO DENTRO DA DANÇA AFRO-BRASILEIRA CÊNICA

 

Um dos nomes mais importantes das artes Afro-Brasileiras Cênicas do Espírito Santo, Renato Santos tem no seu entorno, entre família e comunidade onde nasceu e cresceu, suas primeiras referências de arte e de identidade. Nos anos 80, formou-se em ballet clássico pela Royal Ballet e estudou a Dança Afro-Brasileira Cênica do Método de Mercedes Baptista no Studio de Ballet Lenira Borges, além de ingressar no curso de Educação Física da UFES. Como artista, pesquisador e professor, Renato abriu caminhos à época não trilhados no estado – árduos especialmente devido a uma sociedade racista em sua estrutura –, o que resultou em significativo legado para a dança capixaba. Ao lado de parceiros, atuou pela profissionalização da categoria Dança Afro-Brasileira Cênica; é um dos fundadores do grupo NegraÔ; foi coordenador do curso de Dança da Escola Fafi e responsável pela elaboração do Curso de Qualificação em “Dança Afro-Brasileira Cênica”, Método Mercedes Baptista, do Museu Capixaba do Negro – MUCANE (para onde doou sua produção escrita sobre esta arte acadêmica). Atualmente, Renato é coordenador da ação multidimensional de avivamento da História da Diáspora Africana no Centro Histórico e do Morro Fonte Grande/Piedade, no Centro de Vitória. Confira a seguir a entrevista concedida pelo artista ao Portal Dança no ES  


Fotos: Luiz Carlos Cardoso

 

P: Como se deu a entrada da dança na sua história?

 

Eu sou de uma família muito tradicional da cultura e da arte no Espírito Santo, que fundou a escola de samba Unidos da Piedade, que mantém a Folia de Reis do bairro, banda de Congo... e minha tia era uma famosa radialista do Espírito Santo, a Maria José, então os artistas que vinham do Rio de Janeiro e até de fora do país, ela que entrevistava, trazia aqui para casa. Eu acabei conhecendo muitos artistas importantes de várias áreas, então meu contato com a arte é desde criança. E com meu avô, ele ensinou uma arte marcial para mim e meu irmão, que é o Bassula, ou jogo de pernada, um jogo angolano. E também foi onde começou a capoeira. A escola de samba, em 1971, saiu com o tema Baía de Todos os Santos; então eles trouxeram aqui, nessa época, uma pessoa da Bahia para ensinar a capoeira e também trouxeram pessoas do terreiro de candomblé para ensinar as danças dos Orixás, é aí que eu tenho contato com isso. Então eu já vinha com esse convívio e esse conhecimento que minha família tinha de artista; e ganhei uma bolsa na escola da Lenira Borges, nos anos 70, eu era um adolescente.

 

P: Como foi sua passagem pela escola da Lenira Borges?

 

Foi uma passagem longa, me formei. E ali ela trazia muitos coreógrafos de fora, e ela criou uma amizade muito grande com a Mercedes Baptista, eram amigas mesmo, de trocar figurinhas. E a dona Lenira a chamou para fazer uma coreografia, e ela disse “não vou fazer uma coreografia, vou introduzir esse estilo de dança na sua academia”. E ela foi, começou a dar aula pessoalmente, e depois deixou o Raimundo Netto, que continuou dando aula na Lenira uma boa parte dos anos 80 e depois foi para a Alemanha. E foi ali que a gente absorveu a técnica, o método Mercedes Baptista de Dança Afro-Brasileira Cênica, uma dança acadêmica. Porque o pessoal confunde muito quando a gente fala de dança afro, pensa que é uma dança não acadêmica, mas é uma dança acadêmica, que tem as suas posições, posturas e movimentos, que são os elementos de uma dança cênica.

 

P: Como a Dança Afro-Brasileira Cênica se estrutura?

 

Dentro do universo da dança Afro-Brasileira Cênica, existe a dança clássica, que é baseada nas danças dos Orixás, e, basicamente, quem é detentora dessa escola clássica é Mercedes Baptista, além de Joãozinho da Gomeia, e, como mentor intelectual, Abdias do Nascimento – essa é a tríade da dança clássica Afro-Brasileira Cênica. É uma dança cênica, de palco. Tem a parte da dança moderna, que aí já tem influência do Jazz, e tem também a parte da dança afro-brasileira contemporânea (um dos grandes dessa escola é Ismael Ivo). Então a dança Afro-Brasileira Cênica tem todas as suas camadas históricas: dança clássica, moderna e contemporânea. É igual à dança ocidental. Não é um apêndice da dança clássica, nem da dança moderna, nem da dança contemporânea, ela é uma nova estrutura, e essa nova estrutura tem o seu conteúdo clássico, moderno e contemporâneo.

Então tivemos contato com Mercedes Baptista em 70 e 80, Lennie Dale em 80 e 90, e, nos anos 80, começando o surgimento da dança contemporânea em São Paulo – aí a gente começa a ter um contato rápido, porque logo depois o Ismael Ivo foi para fora. Mas eu consegui ter contato com todas essas camadas. Por isso é que eu falo: é uma dança cênica, de palco e tem essa estrutura; porque o que eu vejo as pessoas escrevendo e falando... não captam isso, e muito por racismo estrutural, por pensar que por ser uma dança africana, afrodescendente, não tem a capacidade de ter todas as camadas de uma dança cênica, então começa-se a discutir... “é uma dança folclórica, popular, tradicional...”. É baseado na dança folclórica, na dança popular, na dança tradicional, na dança religiosa, assim como o clássico é. Quebra-nozes é um tema folclórico russo. As fadas, os gnomos que existem na dança clássica são do folclore europeu, da Europa Caucasiana. E é uma dança religiosa, porque os elfos são seres da religião europeia não cristã. Então se vive isso com uma facilidade enorme na dança europeia clássica, e quando chega na nossa dança cênica, começam a falar que é macumba, é feitiçaria, poxa, mas não usam as mesmas coisas? Por que não chamam as fadas, os gnomos da dança clássica de macumbaria, feitiçaria?

Essa é uma maneira de ver o preconceito estrutural, que não declara que está fazendo racismo, mas usa toda a estrutura do conceito já existente para fazer racismo, para a opressão contra a dança cênica afrodescendente. E dentro da dança cênica afrodescendente tem as danças africanas nacionais, que é Dança de Angola, Dança de Nigéria, Dança do Congo, mas dança Afro-Brasileira Cênica é um guarda-chuva cênico que abriu a porta para todas essas manifestações cênicas de palco que hoje existem.

 

P: Como você chegou a fundar o NegraÔ, qual era o contexto?

 

Quando eu entro na Ufes, eu levo todo esse conhecimento para lá. A dança afro, os conhecimentos das tradições dos povos Bantus do Morro da Fonte Grande, eu levo tudo lá para dentro, eu não me divido, eu sempre fui inteiro, não sou daquelas pessoas que... “quando você se descobriu negro? Quando você se descobriu afrodescendente?”. “Desde sempre!” Eu entrei na Ufes sabendo quem eu sou e sabendo o que eu tenho; e, entrando lá, eu impus isso. E lá encontrei parceiros, que foram o professor de História Cleber Maciel, Verônica da Pas, Ariane Meireles, Lavínia, Sueli Carvalho, Sueli Bispo, entre outros, esses são os mais próximos. Como eu já tinha formação de clássico, já tinha a formação de dança afro cênica, a gente começou a divulgar isso dentro da Ufes, e criamos um grupo de estudos (nos anos 80). Tivemos como mentor o Cleber Maciel; tivemos o professor Paulo Roberto também nos conduzindo, mostrando autores. Por isso que eu falo que é uma dança acadêmica, porque há um estudo acadêmico extremamente aprofundado, e hoje eu estou compilando isso, tenho várias coisas já escritas. Eu vi que há uma carência. Depois de tanta gente ter feito, ainda há pessoas com dúvidas do que é – e se é. No mínimo, por falta de conhecimento.

Montamos o NegraÔ para fazer a reafirmação de que é uma dança cênica, de que é uma dança de palco. A primeira coreografia profissional foi em 1991. Então a gente considera o primeiro momento da dança Afro-Brasileira Cênica capixaba com a primeira coreografia do NegraÔ, que faz 30 anos agora. E este ano é muito simbólico, porque faz 70 anos que Mercedes Baptista retorna dos Estados Unidos, ela foi para lá através da bolsa que ganhou, e lá ela tem contato com o movimento black (preto) nos Estados Unidos.

 

P: Os debates e as rodas de conversa sempre estiveram presentes no NegraÔ e nos aulões, né? Você também já foi coordenador do curso de Dança da Fafi e responsável pela criação do curso de Qualificação em Dança Afro-Brasileira Cênica no Mucane. Qual é seu olhar sobre a educação e o ensino da dança afro?

 

É uma arte acadêmica, que faz parte de uma formação corpóreo-motora, cognitivo-sociocultural, que é a dança, em um país essencialmente africano, e que estava fora de todo um contexto pedagógico e didático. O que nós começamos a fazer, como somos professores, começamos a transformar, a criar um espaço didático para essa arte acadêmica, porque até então não existia um espaço didático para isso. A gente começou a escrever sobre a técnica, e essa técnica das artes cênicas tem todos os seus métodos, nomes, porquês, como e onde. Começamos a escrever sobre isso e a repassar esse saber na posição e do tamanho que ele é.

O NegraÔ surgiu para confirmar isso, e eu posso dizer que é um dos primeiros movimentos no mundo, porque todos os outros grupos de dança cênica afro-brasileira começaram a se autodenominar como dança folclórica. Nós fomos um dos primeiros, senão o primeiro, a assumir a dança Afro-Brasileira Cênica enquanto arte acadêmica, que contém seus saberes e suas camadas.

Chegando à Fafi, seu método-base tinha se deteriorado, porque, com saída do mestre cubano de lá, o método cubano tinha perdido sua essência na escola. E nesse período em que fiquei lá (de 2009 a 2013), eu recuperei a técnica cubana, que é da Alicia Alonso. Nesse momento, já que eu estava recuperando o método da Alicia Alonso, pensei “o método da Mercedes Baptista está esquecido aqui também”, então fui e o recuperei conjuntamente, usando o mesmo tempo, espaço e as facilidades que um cargo de coordenador do tamanho de uma escola como a Fafi oferece, e montei o curso de Qualificação em Dança Afro-Brasileira Cênica.

Eu sou formado no método Royal, por que não introduzir este método no lugar do cubano? Porque, na sua raiz, a Fafi foi instituída com o método cubano, então o respeito que temos que ter pelas raízes das escolas é algo importante no mundo da dança. Como passou a ser uma escola técnica, não podia ter só o método clássico, teria que ter o método moderno e contemporâneo, então também ajudei a escrever isso para a Fafi. E aproveitando, como eu já estava escrevendo, escrevi o método da Mercedes Baptista para o Mucane, em 2013. Mas, no Mucane, os professores estavam tendo dificuldade de passá-lo, porque eles não o conheciam muito bem, que consiste em posturas, movimentos e direções. Fui e escrevi o método.


P: Sobre a sua trajetória como bailarino, gostaria que falasse um pouco sobre seu contato com a dança-teatro e o espetáculo “A Flor da Pele”, um dos mais recentes antes da pandemia.

 

Nesse caminho, existe uma outra escola em que aprendi muito, que é a escola da dança-teatro. Houve um festival patrocinado por uma marca de cigarro e, naquela época, veio a Pina Baush e escolheu algumas pessoas para ficar uma semana ou duas com ela e a companhia dela no Brasil, e ela fez uma apresentação no Teatro Municipal do Rio de Janeiro depois. Ela veio, deu palestra, aulas para esse grupo que ela escolheu, e uma dessas pessoas fui eu. Foi aí que tive contato com essa técnica.

Toda a técnica do gestual era feita para ter uma intencionalidade de fala, de ser uma fala, de ser um sentimento. Ali foi uma coisa libertadora. No afro a gente tem isso, mas eu também venho de uma escola clássica que não tem muito isso, aí eu consegui usar aquela técnica do clássico com todo o potencial que eu conseguia fazer no afro, através do que Pina Baush provocou na gente. Ela dizia “seu salto é lindo, sua pirueta é linda, mas todo mundo que é formado em ballet faz. O que é isso para você?”. É a técnica para além da técnica. Achei meio duro na época, pensava “levei tantos anos para adquirir isso...”. Mas foi fazendo total sentido, virou a chave. A dança afro já tem isso na sua essência, porque vem de uma dança sagrada. Ismael Ivo, por exemplo, conseguiu fazer essa junção, e eu comecei a entendê-lo melhor depois disso também.

Foi aí que comecei a fazer essa ligação da dança clássica com a dança afro e com essa potência teatral. E criei essa minha última coreografia, “A Flor da Pele”, que prenuncia o que iria acontecer, a pandemia, a solidão, a angústia. Eu dancei umas três ou quatro vezes, e pensei “ah, não posso dançar mais essa coreografia”. “A Flor da Pele” eu não quero dançar mais. Dói muito. Tem danças que doem. Você termina de dançar, ela te dói no sentimento, é uma angústia, e angústia dói no corpo. Este é um espetáculo de dança-teatro – eu gosto de sinalizar qual técnica é abordada porque danço várias técnicas. Quem me conhece da dança afro, por exemplo, vai esperando um espetáculo de dança afro. Eu danço também as danças urbanas, sou um dos primeiros a dançar danças urbanas no estado.

 

P: Considerando desde quando você inicia todo esse movimento da dança Afro-Brasileira Cênica aqui, e ele vai ganhando também as escolas, como você avalia o cenário da dança no estado? De lá para cá, o que se tem feito a partir disso?

 

Uma parte da minha família é do Rio de Janeiro, então eu ia passar as férias de verão no Rio. Tive contato com as escolas de classe média de lá, Lennie Dale, técnicas de dança. Eu consegui ter essa formação. Hoje há uma grande diferença, porque nós estamos aqui no estado e temos essa formação, então a gente consegue passar para mais pessoas. Na minha época, você contava nos dedos: éramos eu, Ariane, Walter e Ciça, que nos juntamos e criamos o NegraÔ.

Hoje formamos muitas pessoas, e há muitas pessoas lá na Ufes que podem fazer isso. Agora, por que não fazem é uma outra história. Mas hoje há essa possibilidade. A Ariane está aqui, eu estou aqui, Walter está aqui, Ana Cecília está aqui; nós não saímos daqui. A grande diferença é que hoje há uma matriz de conhecimento, o que na época não se tinha. Isso se deve muito a uma obstinação da Lenira Borges em trazer todas essas técnicas para o Espírito Santo. Hoje existe essa matriz aqui, ninguém precisa se deslocar para o Rio ou para São Paulo, como a gente fez na nossa época.

O que é necessário hoje? É necessário que os legados sejam reafirmados, porque o movimento da arte acadêmica da Dança Afro-Brasileira Cênica e as suas ramificações clássica, moderna e contemporânea ganharam corpo e estudos acadêmicos dentro da Ufes. Não éramos muitos; hoje somos muitos. O que eu provoco em relação à juventude que está lá hoje e tem acesso a essas informações é que eles, jovens, assumam esse legado. Quem está dentro da Ufes, assuma esse legado dentro da universidade, porque é uma dança acadêmica; que assuma esse legado não como uma dança folclórica, popular ou tradicional, porque não é.

 

P: É essencial que haja o cuidado e a responsabilidade de manter vivo o que foi construído até aqui, né?

 

Na nossa época, não tinha grupo de estudos da cultura africana e afro-brasileira, hoje tem na Ufes. E por que abandonaram esse legado na Ufes? Portanto é ético, penso eu, estes assumirem esse legado dentro da universidade, porque o trabalho que nossa geração fez não pode ser apagado ou jogado fora; hoje é uma herança dos povos africanos no Espírito Santo, e é um espaço de afirmação e reafirmação, portanto a Ufes e os afrodescendentes que estão na universidade precisam urgentemente assumir esse legado, não como uma dança folclórica, tradicional ou da pesquisa sociológica ou antropológica. Não. Como arte acadêmica cênica.

Hoje existe um núcleo de estudo da cultura africana e afro-brasileira dentro da Ufes. Há um capital, um cargo para isso. Na nossa época não existia. Se ganham pouco ou ganham muito, na nossa época a gente não ganhou nada. E se acha que é pouco, lute para ganhar mais, mas negar, apagar ou afrouxar por isso... num país racista você vai ganhar pouco e não vai ser valorizado. Então ou luta, ou luta.

Nosso trabalho transformou-se no NegraÔ e em uma profissão no Espírito Santo, e essa profissão se transformou em uma escola, que é mantida com o dinheiro público, e isso para uma arte que há pouco tempo era chutada; para ter um espaço, uma sala com professores, em uma estrutura paga com dinheiro público... é um avanço absurdo, não se pode perder isso. O curso de qualificação tem que continuar aberto, o Mucane tem que continuar aberto. Todos os legados que a minha geração, enquanto aluno, e a geração do Cleber Maciel, enquanto professor, deixaram na Ufes não podem morrer.

Portanto, esse legado não ser tratado de uma maneira no mínimo ética dentro da Ufes... porque, no ano em que faz 70 anos da dança Afro-Brasileira Cênica e faz 30 anos de profissionalismo no Espírito Santo, a Ufes não comemorar e não escrever sobre isso é uma falta de respeito a Cleber Maciel, a Verônica da Pas, a Walter, a Ariane, a Ciça e a mim. Eles têm a obrigação, porque trata-se de uma instituição, e a Constituição da nossa nação obriga que eles façam isso, eles são pagos para isso, têm o dever moral de fazer isso. No Mucane, há o dever moral de manter o curso aberto. Em plena década do afrodescendente, está acontecendo isso, um apagamento de um conhecimento, de um saber afrodescendente, um apagamento dentro da Ufes, um apagamento dentro do Mucane. Isso pode ser considerado um crime de leso à humanidade e um desrespeito aos povos africanos, principalmente aos enraizados no Espírito Santo.

 

P: A partir da sua vivência, temos aí a importância de ter a dança, particularmente a dança afro, também como arte acadêmica, mas, para além disso, o que é a dança para você, na sua vida?

 

Eu vivo numa comunidade em que a música e a dança são muito presentes. Nós dançamos aqui em todas as épocas. Na Folia de Reis, dançamos para o menino Jesus criança, depois, no Carnaval. A escola de samba ensaiava aqui no quintal da minha casa; da casa do meu avô saía a Folia de Reis, então eu não me conheço sem a dança. E não me conheço sem a dança com os corpos africanos, afrodescendentes, e fazendo isso com uma potência enorme. Eu nunca não vi isso. Para mim, é a coisa mais natural possível. É difícil falar o que é. É porque é; é porque existe, é minha vida comunitária, é minha vida pessoal. Eu não sei o que é, porque eu não sei o que não é. Eu nunca não tive a dança, a música, a cultura, pessoas afrodescendentes potentes, bonitas, saudáveis, pulando, dançando, com o corpo em pleno agito, em plena potência máxima, em pleno volume máximo. Eu nunca não tive isso. Posso falar o que não é. O que não é, é a morte.

 

P: Você tem planos de um novo trabalho de dança?

 

Eu tenho vários prontos. Eu continuo criando. Tenho alguns antigos, que estou recuperando, e tenho vários outros novos que eu vou lançar. O baú já está cheio. Quando terminar a pandemia e abrir algum espacinho, eu já estou pronto. Estou treinando todo dia. E isso foi outra coisa que eu aprendi com a Mercedes, e depois a Pina Baush me confirmou – isso é o básico que você tem que fazer, isso espera-se, o que a gente quer é além disso.

 

P: Algum desses trabalhos já tem nome?

 

Tem, sim. “A Quinta Parede”, que é um espetáculo de multiplataformas. Eu peguei as músicas de Sérgio Sampaio, os textos de Rubem Braga e juntei, fiz um conto de um jornalista angustiado porque não tinha mais o que escrever, mas a cabeça dele estava cheia, ele tinha que escrever. Aí eu escrevi sobre essa pessoa, usando duas plataformas diferentes (música e crônica) e passei para a plataforma da dança-teatro. Esse é o meu espetáculo de reestreia. É um espetáculo que eu fiz em homenagem a Rubem Braga em 2001. Pretendo retomá-lo porque acho muito parecido com o momento de agora, que é uma pessoa dentro de uma casa, sozinho, isolado, tendo que produzir em home office. E tem um novo, que eu estou fazendo, que aí é segredo.


domingo, 19 de setembro de 2021

Frutos do Ventre oferece oficina e apresentação de dança do ventre

O evento beneficente Frutos do Ventre acontecerá no início do mês das crianças, nos dias 01, 02 e 03 de outubro. A edição de 2021 será para ajudar o Instituto Araújo que, dentre outras atividades, oferece oficina de balé para crianças em situação de risco. Para arrecadar doações e ajudar crianças a terem a oportunidade da vivência da dança em suas vidas, serão feitas uma oficina de dança do ventre, uma palestra e uma live show. 


A bailarina Márcia Ameenah ministrará oficina de dança do ventre. Foto: Jay Andreotti.

Para abrir o evento, acontece uma live no dia 01/10 às 18h30 com o tema: "O Poder Criativo do Ventre". Nesta live será possível compreender o que é o ventre, seu potencial criativo, seus frutos e como despertar esse potencial. Será uma oportunidade para muitos insights, assim como permitirá aos participantes compreender toda a proposta das atividades que virão em seguida.

No sábado, dia 02/10, as atividades acontecem pelo Zoom. Às 9h, a inspiradora Tânia Telles dará uma palestra sobre "Autoliderança Criativa". Tânia é mentora de carreira, consultora, palestrante e mãe de 4 filhos. Às 9h30, Márcia Ameenah dará uma oficina prática de dança do ventre com o foco no despertar da criatividade. Com uma abordagem para iniciantes na técnica da dança do ventre, esta é uma excelente oportunidade para quem deseja se permitir essa experiência e ainda ajudar as crianças do Instituto Araújo.

No domingo, dia 03/10 às 17h, ocorre uma live show no IG da organizadora do evento,  @marcia.ameenah. As bailarinas que irão se apresentar, além de serem profissionais de diversas partes do país, são todas mamães. A sensibilidade materna estará presente em cada dança em prol da causa beneficente!

Para participar das atividades gratuitamente é necessário fazer inscrição. Assim, as pessoas participantes receberão as orientações para a palestra e oficina, o link da sala de aula e, além disso, conseguirão emitir o certificado de participação após o evento.


SERVIÇO

FRUTOS DO VENTRE

GRATUITO, MEDIANTE INSCRIÇÃO

INSCRIÇÕES E INFORMAÇÕES: https://doity.com.br/frutos-do-ventre 

01/10: Live "O Poder Criativo do Ventre", às 18h30, no IG: @marcia.ameenah.

02/10: Palestra com Tânia Telles: "Maternidade e Autoliderança Criativa", às 9h. Oficina com Márcia Ameenah: "Dança do Ventre e o Despertar da Criatividade", às 9h30.

03/10: Apresentação com bailarinas de todo o país, às 17h, no IG: @marcia.ameenah.

Todo o evento acontecerá por doações voluntárias feitas diretamente para o Instituto Araújo: PIX: 08703093743 e PicPay: @ozeti.delourdes.araujo